sábado, 24 de novembro de 2012

A censura ganha força


Grande parte da imprensa, os "Diários Associados" - revistas, rádios, jornal e TV -, O Globo, 
Folha de São Paulo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo festejaram a 
deposição do governo de Goulart. Contrariando essa  tendência, apenas o jornal Última Hora 
combateu o golpe, o que levou o seu diretor Samuel Wainer a exilar-se.

Em 1 de abril de 1964, O Estado de S. Paulo trazia o seguinte texto: "Minas desta vez está 
conosco (...) dentro de poucas horas, essas forças  não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições." No Jornal do Brasil se lia: "Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade ... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas". 
O Globo de 2 de abril de 1964 dizia: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, 
os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". E O Estado de Minas trazia em 2 de abril: "O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade."  
O Globo de 4 de abril trazia: "Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque 
souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a democracia, a lei e a ordem". 
Ainda em 1968, a revista Veja publicava em sua primeira edição: "A URSS de Brezhnev, 
Podgorny e Kossiguin, no momento de soltar os tanques, não é diferente da Rússia santa e dos czares que soltava a cavalaria. Ela não renega a sua vocação imperialista. A URSS pretende apenas salvar o que pode do seu império para ser, ainda, o sol da sua galáxia."  
Segundo a Fundação Getúlio Vargas, "(…) o golpe militar foi saudado por importantes setores da sociedade brasileira. Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, da Igreja católica, vários governadores de estados importantes (como Carlos Lacerda, da Guanabara, Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Ademar de Barros, de São Paulo) e amplos  setores de classe média pediram e estimularam a intervenção militar, como forma de pôr fim à ameaça de esquerdização do governo e de controlar a crise econômica."
O sentimento de festa de então, que fez vistas grossas à deposição sem amparo legal de 
Goulart, se torna em desilusão com a atuação do governo militar e passa a criticar as ações arbitrárias da Junta Militar e, depois, de Castelo Branco. A Revista Civilização Brasileira em seu primeiro número (março de 1965), no artigo "terrorismo cultural", diz que "(…) não se limitará a um nacionalismo sentimentalista e estreito, nem se deixará envolver pelo projeto geopolítico ou o planejamento estratégico continental que o Departamento de Estado e o Pentágono promovem e que alguns dos nossos políticos colocam em ação".. 
A ditadura determinou censura aos órgãos de imprensa e sua Assessoria Especial de 
Relações Públicas (AERP) funcionava como uma espécie de agência de propaganda. O material de propaganda era reproduzido nos jornais, rádios, cinemas e principalmente na televisão. A AERP produzia ainda músicas que enalteciam as realizações da ditadura: muitas eram cantadas obrigatoriamente nas escolas. Em 22 de novembro de 1968, foi criado o Conselho Superior de Censura, baseado no modelo norte-americano de 1939, Lei da Censura (5.536, 21 de novembro de 1968). O motivo oficialmente propalado era a infiltração de agentes comunistas nos meios de comunicações, lançando notícias falsas de tortura e desmandos do poder constituído.
No mesmo dia, foi criado o Conselho Superior de Censura, cuja função era centralizar e 
coordenar as ações dos escritórios de censura espalhados pelo país. Também foram criados tribunais de censura, com a finalidade de julgar rapidamente órgãos de comunicações que burlassem a ordem estabelecida, com seu fechamento e lacramento imediato em caso de necessidade institucional. 
A ditadura não se restringia ao campo político, reuniões ou manifestações públicas. Músicas, 
peças teatrais, filmes e livros eram censurados. Na imprensa, nenhuma notícia que criticasse o governo ou revelasse suas práticas era veiculada. Censurado diariamente, o Estado de São Paulo, depois, resolveu utilizar os espaços com trechos de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, clássico da literatura portuguesa do século XVI.  
No dia 18 de Julho de 1968 integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo de 
extrema direita, invadem o Teatro Ruth Escobar, em  São Paulo, espancam o elenco da peça  Roda Viva, ferindo todos os integrantes, alguns com certa gravidade; a polícia, embora chamada, nada fez além de um boletim de ocorrência. A ditadura acabou por asfixiar a cultura nacional. Muitos artistas buscaram espaço para suas produções. Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Chico Buarque, entre tantos outros, deixaram o Brasil. Gilberto Gil e Caetano Veloso, após protestarem publicamente contra a ditadura, foram 
presos no Rio de Janeiro no dia 22 de Dezembro de 1968. Segundo os censores e os órgãos de 
informação oficial, o motivo da prisão foi "tentativa da quebra do direito e da ordem institucional", com mensagens "objetivas e subjetivas à população" para subverter o Estado Democrático Brasileiroestabelecido pela  revolução. Em função da notoriedade dos artistas, foram  aconselhados a se exilarem do país. No jornal Estado de São Paulo, embaixo do título da notícia, aparece uma receita de torta de abacaxi recheada com pepino. 
No dia 16 de janeiro de 1969, são cassados Mário Covas e mais 42 deputados, são 
estourados diversos  aparelhos comunistas. Segundo informado pelas forças de repressão, 
infelizmente devido à sua reação armada às forças de segurança, os "terroristas" não sobrevivem. 
Para ampliar a repressão com mais eficiência, no dia 1 de julho de 1969, o governador de 
São Paulo, Abreu Sodré, criou a Oban, (Operação Bandeirantes), para reprimir e perseguir no estado todos aqueles que se opõem à ditadura. No dia 25 de janeiro de 1969, Carlos Lamarca, capitão do Exército Brasileiro, foge do quarto Regimento de Infantaria, levando consigo dez metralhadoras INA ponto quarenta e cinco, e sessenta e três fuzis automáticos leves Fal. A deserção de Lamarca, além do sequestro do Embaixador poucos meses antes, levaram os militares às últimas consequências para acabar de uma vez por todas com a resistência armada no Brasil. Os  comunistas passaram a ser perseguidos e mortos implacavelmente pelos esquadrões da morte em todo o país. 
As universidades brasileiras viviam sob verdadeira  ocupação militar: professores foram 
aposentados compulsoriamente, alunos expulsos, livros censurados. A censura, executada pelo extinto Conselho Nacional de Telecomunicações - CONTEL, comandado pelo SNI e pelo DOPS, proibiu toda e qualquer exibição em território nacional de filmes, reportagens, fotos, transmissão de rádio e televisão, que mostrassem tumultos em que se envolvessem estudantes.  
Na prisão, os detentos eram torturados: choques elétricos, afogamentos e agressões de toda 
ordem se constituíam em práticas rotineiras. O jovem estudante Stuart Angel foi preso, torturado e teve a boca atada ao escapamento de um jipe que o arrastou pelo pátio do quartel onde estava detido. Angel morreu na primeira volta. 
Livrarias, bibliotecas e casas de intelectuais foram "visitadas". Todos os livros que falassem 
sobre Comunismo, Socialismo ou Reforma Agrária eram apreendidos. Nessa época chegou-se ao cúmulo de se cometer estapafúrdios, como apreender  livros sobre qualquer assunto pelo simples fato de se ter a capa vermelha ou nome de autores russos. 
Paulo Evaristo Arns, Hélder Câmara, um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos 
do Brasil, que lutou pelos direitos humanos contra  a ditadura militar e também nos tempos do integralismo, no governo de Getúlio Vargas, e Pedro Casaldáglia, além de outros religiosos, 
contestaram o regime militar. A CNBB se manifestou contra o regime militar. 
A Rede Globo apoiou a ditadura militar. O livro Nova História Crítica, de Mario Schmidt, que 
mostrou essa ligação da Rede Globo com a ditadura militar, foi duramente criticado por Ali Kamel, jornalista da Rede Globo, e o MEC rejeitou o livro.


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